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PESCADOR DE SEREIAS por Ruth Botelho
PESCADOR DE SEREIAS Ruth Guimarães Para os meados de outubro, quando as chuvas mal começaram e o rio, tendo crescido e amarelado um pouco, principia de se apinchar debaixo das moitas, aperparando local de traíra, então é tempo de cascudo. Pois então a gente foi caçar cascudo. A ida foi um farrancho alegre, houve risos, anedotas, falatório, pessoal contador de vantagem abrindo os braços, assim, para mostrar tamanho de peixe. E cantoria, apesar de que brasileiro não é gente de muito cantar. Até dona Adelaide, que gosta mesmo de pescar é de caniço e samburá, foi; até o Toninho do Ciano, pescador afamado dos dourados de dezessete quilos e mais, foi. Até João Serafim, que uma vez andou correndo da polícia, porque virou o peixame todo do rio de barriga pra cima, com uma carga braba de timbó, foi. Esse João foi o tal que jogou a rede certa noite, pesou no arrasto, será muito peixe? que ele se perguntou, cismado. Era sereia. A coitadinha ve...
Santo Genaro, festa e desengano por Ruth Botelho
Santo Genaro, festa e desengano Ruth Guimarães Morei no Brás, em São Paulo, quando tinha nove anos. Meu pai fora convidado para assumir a função de contador – guarda-livros, se chamava então – de uma firma de italianos. Ganhava um ordenadão de 400 mil réis por mês. Morávamos bem. Numa vila da Rua Gomes Cardim, iluminada ainda a lampião de gás, que a prefeitura mandava acender toda noite. Lampiões acesos, ruas ainda seguras, prosseguiam os meninos com o pique sem-fim e as meninas brincavam de roda. Meus primeiros e talvez únicos aprendizados do italiano foram os palavrões que a molecada soltava, nas brincadeiras de rua. Talvez o mais comum fosse “Maledeto San Genaro”. San Genaro, tratado assim, com essa intimidade, essa vizinhança moral, é uma espécie de Macunaíma italiano. Macunaíma é um tipo que está em todos os folclores, mudando o nome, é claro. Ele é João Soldado, é Pedro Malazartes, é Pedro Urdemales, é Ulisses, o Astuto, é Bertoldinho, é Cacasseno, é o velhaco, o safado, o herói ...

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