Santo Genaro, festa e desengano Ruth Guimarães Morei no Brás, em São Paulo, quando tinha nove anos. Meu pai fora convidado para assumir a função de contador – guarda-livros, se chamava então – de uma firma de italianos. Ganhava um ordenadão de 400 mil réis por mês. Morávamos bem. Numa vila da Rua Gomes Cardim, iluminada ainda a lampião de gás, que a prefeitura mandava acender toda noite. Lampiões acesos, ruas ainda seguras, prosseguiam os meninos com o pique sem-fim e as meninas brincavam de roda. Meus primeiros e talvez únicos aprendizados do italiano foram os palavrões que a molecada soltava, nas brincadeiras de rua. Talvez o mais comum fosse “Maledeto San Genaro”. San Genaro, tratado assim, com essa intimidade, essa vizinhança moral, é uma espécie de Macunaíma italiano. Macunaíma é um tipo que está em todos os folclores, mudando o nome, é claro. Ele é João Soldado, é Pedro Malazartes, é Pedro Urdemales, é Ulisses, o Astuto, é Bertoldinho, é Cacasseno, é o velhaco, o safado, o herói ...
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