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ORAÇÃO PARA SÃO CLEMENTINO por Ruth Guimarães

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ORAÇÃO PARA SÃO CLEMENTINO  Ruth Guimarães Minha mãe era uma boa alma. A mais antiga das minhas lembranças a respeito de um tal seu Clementino, servente do Grupo Escolar o traz de volta ao olhar da memória, batendo os tamancos na chamada rua da Ponte, aliás rua de Cima, nome certo era Silva Caldas (Silva, não Sílvio). Vinha pela rua muito franzino e curvo, branquinho, engelhado, com seu parelho de brim de cinza gasto, desbotado o paletó subindinho nas costas, corcunda que seu Clementino era. O sol era quente, tremia o ar, as árvores se abochornavam, cansadas, havia um lento ensimesmar por toda a várzea.  Rua de Cima era quente, negra, modorrenta. Seu Clementino vinha de tamancos, pleque-pleque, era um custo andar todo aquele pedaço. Todos os dias.  Tinha a fala mansa.  Tinha um riso malestarento, de boca entreaberta, suplicante, deixava a gente com vontade de chorar e meio com raiva dele. Tinha um modo de dizer “sim-senhor” (“Não-senhor” não falava).  Dava vonta...

TEOGONIA TUPI por Ruth Guimarães

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TEOGONIA TUPI Ruth Guimarães Contam os velhos caboclos, mestiços de índios, que abaixo de onde nós moramos existe uma outra terra. Diferença que tem deste mundo é pouca. O que existe aqui existe lá, mas é tudo mais bonito. Consta de um campo grande, tão grande que do comecinho não dá pra ver o fim. A vista não alcança. O campo tem grama verde, de um verde claro e lustroso, de canavial depois da chuva. Buriti lá embaixo é arvorezinha, pequenina, altura de uma pessoa. É como cajueiro do cerrado, que em vez de árvore frondosa é arbusto. Quem quiser chupar coquinho de buriti é só estender as mãos e lá estão os frutos maduros, oferecendo-se. As campinas estão cheias de caça. Muito se vê ali. Anta, capivara, tatu, tamanduá, veadinho campeiro, caça grande e caça de pena, mutum, jacutinga, cajubi, codorna. Há de um tudo, nos encantados campos. Gente? não se sabe se assiste ali. A caça percorre tranqüila os grandes banhados, sem ninguém que judie dela. Dizem que os porcos-do-mato procedem de lá...

Gota d’água por Regina Rousseau

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Gota d’água (in memoriam Dom Helder Câmara) Por certo, ao saber que o relógio marca o tempo da paciência, ele tinha o dom de lutar e a linguagem dos pobres falar. Reconhecendo a urgência do momento, era preciso libertar da tortura da fome, o Brasil dos excluídos. Uma gota d’água pode salvar a sinfonia destes dois mundos, e reconciliar a Igreja com o terceiro mundo. Abençoados os que cultivam a coragem, na terra onde a voz é fraca e melancólica e se perde com detalhes insignificantes. Abençoados os que espremem cada gota de vida em favor das almas desfavorecidas, para que cessem as lágrimas dos órfãos. Neste solo estrangeiro, Dom Helder, cidadão de outro reino, alma flamenga, enxergava outro mundo, do lado de fora da sua janela... desperta Igreja! Regina Rousseau

TEATROCRACIA por Ruth Guimarães

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TEATROCRACIA Ruth Guimarães Porque a terra é redonda e nossa vida também é, a gente dá duas voltinhas e vai parar na Grécia.  Que culpa temos nós de que a sua filosofia seja tão profunda e poderosa, tão arguta s sábia, que nos revelou a nós mesmos, e revelou as sociedades a si próprias, com uma dolorosa verdade? Os gregos viviam muito mais nas ilhas que nos continentes.  Muito mais no mar que na terra.  O excesso de mar fez deles navegantes.  Eles conheceram a solidão, dias e dias sem paisagem, somente mar e céu, dias e dias em que o marulho das ondas, sempre igual e sempre repetido, à força de ser sempre o mesmo se transformava em silêncio. Os lusitanos também padeceram de solidão, de mar sempre azul, do toque do silêncio e do beijo da morte.  Nem por isso se deram às grandes interrogações.  Nem por isso os inquietou o mistério da natureza humana.  E o que é mais.  Com esses carismáticos e cabulosos gregos, o que eles inventaram, descobriram, fil...

Sinos de cidade morta por Ruth Guimarães

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Sinos de cidade morta Ruth Guimarães Tocaram certa vez os sinos, em desatinado alvoroço, quando os homens empedernidos da minha terra bateram nuns missionários. Um deles foi empurrado, a outro deram-lhe um pontapé. O religioso caiu, sem dizer palavra. Apenas olhou para o céu, tomando-o como testemunha de tamanha iniquidade. Justamente nesse momento, o sino desandou a badalar. Os homens entrepararam indecisos. Não fosse aparecer alguém com a idéia de quem em padre só se bate da coroa para cima. Subiram a torre, para ver quem tocava, e na torre não estava ninguém. O repicar não se fazia mais ouvir, mas a corda do sino ainda balançava de leve. Talvez o vento. Esse diabo desse sino enfeitiçado, resmungou um deles. Foram para casa, silenciosos, mas muito silenciosos mesmo, além disso com uma certa pressa. No lugar onde o sacerdote caíra diz que nunca mais caiu uma gota de chuva. Foi o preço do pontapé. Lá não chove mesmo, eu vi. Foi construído por cima do lugar uma espécie de galpão. Os pad...

Palas Comunicação

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Palas Comunicação Prestação de Serviços em Trabalhos Acadêmicos Apoio na elaboração e revisão de trabalhos acadêmicos, conforme ABNT Olavo Botelho – tel: 11 97649 1386 / 11 2367 4935 Web: http://apoioerevisao.blogspot.com.br http://www.palascomunicacao.com.br E-mail: olavorevisor6@gmail.com MSN: olavorevisor@hotmail.com Oferecemos: REVISÃO: *  NORMA  GRAMATICAL *  CORREÇÃO E REFORMA ORTOGRÁFICA (Sintaxe e pontuação) *   REESTRURAÇÃO DO TEXTO *   COESÃO DA CONSTRUÇÃO TEXTUAL *   COERÊNCIA TEXTUAL FORMATAÇÃO ABSTRACT (INGLÊS, FRANCÊS, ESPANHOL E ITALIANO)  ELABORAÇÃO DE TEXTOS: *  CONCEPÇÃO E PRODUÇÃO DO TEXTO *  TEXTO ESTRUTURAL E DESENVOLVIMENTO *  DIGITAÇÃO * TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO/TEXTO EM PORTUGUÊS CONSULTORIA EM: COMUNICAÇÃO CORPORATIVA COMUNICAÇÃO PESSOAL TRADUÇÃO E VERSÃO NAS LÍNGUAS: INGLÊS, FRANCÊS, ESPANHOL E ITALIANO TRADUÇÃO SIMULTÂNEA “O revisor não só é um leitor, ele é um leitor com experiência de leitura e rep...

Santo Genaro, festa e desengano por Ruth Botelho

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Santo Genaro, festa e desengano Ruth Guimarães Morei no Brás, em São Paulo, quando tinha nove anos. Meu pai fora convidado para assumir a função de contador – guarda-livros, se chamava então – de uma firma de italianos. Ganhava um ordenadão de 400 mil réis por mês. Morávamos bem. Numa vila da Rua Gomes Cardim, iluminada ainda a lampião de gás, que a prefeitura mandava acender toda noite. Lampiões acesos, ruas ainda seguras, prosseguiam os meninos com o pique sem-fim e as meninas brincavam de roda. Meus primeiros e talvez únicos aprendizados do italiano foram os palavrões que a molecada soltava, nas brincadeiras de rua. Talvez o mais comum fosse “Maledeto San Genaro”. San Genaro, tratado assim, com essa intimidade, essa vizinhança moral, é uma espécie de Macunaíma italiano. Macunaíma é um tipo que está em todos os folclores, mudando o nome, é claro. Ele é João Soldado, é Pedro Malazartes, é Pedro Urdemales, é Ulisses, o Astuto, é Bertoldinho, é Cacasseno, é o velhaco, o safado, o herói ...