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As flores azuis por Ruth Guimarães Botelho

As flores azuis  Ruth Guimarães  Era domingo, quente. Cigarras escondidas por aí, zinindo, sorvetes nos carrinhos da praça.  O pipoqueiro rodeado de crianças, com notinhas de um real nas mãozinhas fechadas.  A pérgola do jardim se iluminava de flores vermelhas, abrindo labaredas contra o céu, nunca vi tanta audácia.  Era domingo. Seu Geraldo, que se julgava muito homem, mas que não gostava de mulher, encostou o pé no tronco craquento de uma velha roseira e dormiu quase uma hora.  Acordou às três.  A criançada do catecismo voltava da igreja com santinhos na mão.  E a vizinha desenhava arabescos de prata sobre as flores com a água de um regadorzinho verde garrafa.  Ele se remexeu, endireitou o corpo com um safanão que fez a roseira chover pétalas na grama.  Nem bem a vizinha aparecera na escada, ele fechara os olhos, cheio de ojeriza.  Mas estava fazendo um calorzinho coçado, que afaga, que amolenta, que agrada o corpo.  Gostosur...

APESAR DOS PESARES por Ruth Guimarães

APESAR DOS PESARES Ruth Guimarães Mal começam os calores abafadiços de fim de ano o noticiário se enche de informações sobre crianças pobres desidatradas, das favelas e cortiços. Mal o inverno desponta e vem o tempo seco, lá vêm as doenças respiratórias. Ainda mais agora  que a fome vem tirando a resistência da infância, e à nossa porta se multiplicam os pedintes. O máximo que se pode fazer nas circunstâncias, e é o que fazem os médicos dos serviços de assistência, é acudir ao pequeno de vida ameaçada, deixá-lo fora de perigo, e devolvê-lo ao cortiço. Para passar fome de novo. E então morrer. A desidatração já se chamou colerina e era uma espécie de cólera em ponto pequena, mas não a ponto de poupar os corpos de que se apossava. Que eram afinal a gastrite e a gastro-enterite, senão o depauperamento, a pouca resistência, a falta de alimentação adequada? Que era a colerina? Que é tudo isto senão a fome, devoradora de crianças? Irmã Ângela, a devotada irmãzinha de um hospital de pobre...

As lágrimas de MukhtarMai por Regina Rousseau

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As lágrimas de MukhtarMai  Jovem pobre e analfabeta, de casta inferior, [caption id="attachment_2006" align="alignright" width="300"] As lágrimas de MukhtarMai[/caption] condenada foi pela jirga (corte tribal de sua aldeia), a ser estuprada e humilhada na presença de homens excitados e impacientes. Qual foi seu crime? Nenhum! Segue-se um breve silêncio e então vem o medo. Ela é arrastada à força, brutalmente, Como cabra a ser abatida, por quatro homens. Num estábulo vazio perde a consciência de si mesma, mas não o rosto daqueles animais bestiais.   Semi-nua, diante de toda a aldeia, que ali estava à sua espera, sob um véu, (sua única dignidade), ela não sabe para onde ir. Seu corpo recusa a realidade, ela está ali, mas não é ela.   Ela pensa em suicídio, engolir ácido e morrer... é o que as mulheres normalmente fazem nessa aldeia, para apagar definitivamente o fogo da vergonha, que se abate sobre a sua família.   Porém recita de memória um versículo do Co...

ANTROPÔNIMOS por Ruth Guimarães Botelho

ANTROPÔNIMOS Ruth Guimarães  Nas alcunhas, os nomes das pessoas são substituídos por antonomásias.  Algumas vezes laudatórias, outras vezes depreciativas, valendo-se de alusões obscuras aos espíritos desavisados.  Com os homens públicos é freqüente essa substituição de nomes.  Por exemplo, Floriano Peixoto era chamado de Marechal de Ferro, Campos Sales era o Patriarca do Banharão.  Rui Barbosa, a Águia de Haia, Wenceslau Brás o Solitário de Itajubá.  Com os escritores se dá a mesma coisa.  Virgílio foi chamado o Cisne Mantuano.  Shakespeare o Cisne de Avon e também de Bardo de Stratford-on-Avon, lugar de seu nascimento. O Padre Antonio Vieira dizia num dos seus sermões que existe um vocabulário de púlpito, que desbatiza os santos, e segundo o qual são mencionados: o Cetro Penitente, o Evangelista Apeles, a Águia da África, o Favo de Claraval, a Púrpura de Belém, a Boca de Ouro.  Ou mais simplesmente Davi, São Lucas, Santo Agostinho, São Berna...

ANDORINHAS CHINESAS por Ruth Guimarães Botelho

ANDORINHAS CHINESAS Ruth Guimarães Ele chegou com aquela maneira a um tempo lenta e contida, própria dos seres de velhas raças.  Os cabelos formam um rodamoinho preto, no alto da cabecinha.  Configurando desenhos em meia hipérbole, um pouco acima no rosto, olhos e sombrancelhas são apenas finas riscas de carvão.  O sorriso também é lento e sábio.  A fala mansa, velada e sussurrante, um pouco rouca. Com uma delicadeza esquisita e fina, dá à postura um jeito de reverência.  Como são expressivas as mãos amarelas, os medidos gestos.  Jamais imóveis. Mas jamais frenéticas. - Sinhola gostal andolinha, mim falal andolinhas. - Pois não, Wen Tsang Chiang, digo, tentando me pôr à altura dessa inimitável cortesia e gentileza. O sangue latino e africano, efervescente mistura, e o cacoete dos muitos anos de ensino me condicionam e, sem querer, corrijo: andorinha.  Andorinha, repete Chiang, docilmente. - Em Formosa já vi andorinhas que fazendo ninho dentro de casa....

ALTERNATIVA por Ruth Guimarães Botelho

ALTERNATIVA Ruth Guimarães Acudiu-me trazer a público o que entendo a respeito de SAÚDE.  O que chamamos de Saúde, e que é apenas a negação dela, uma vez que está abandonada e está como está. Creio ser muito egoísmo guardar para mim tal conhecimento, com tanta gente sofrendo nas filas do SUS e em outras filas. Por efeito do mau exercício do poder, e por outras causas, a Saúde no Brasil está no ponto em que está, falha, ineficiente, com epidemias que já foram dominadas no passado e hoje voltam com a virulência das recaídas; e como temos recrudescidas epidemias como a dengue, doenças sociais, como a AIDS, e mais o amarelão, a maleita.  E mais a droga generalizada com incidência maior para os moços, à qual não se consegue pôr cobro, por culpa sabei-me lá de que má vontade política. E a pior das doenças que pode atacar um governo é a corrupção. E não temos mais um Oswaldo Cruz que, a bem dizer sozinho, acabou com as epidemias. Parafraseando o rei Roberto Carlos, eu vos proponho , ...

AINDA REMARQUE SIGNIFICANDO VIDA por Ruth Guimarães Botelho

AINDA REMARQUE SIGNIFICANDO VIDA Ruth Guimarães Em uma entrevista, há não muito tempo, me perguntaram sobre a questão do demônio do subconsciente das pessoas. Como eu via esta questão. Respondi que o problema estava no meu subconsciente. Eu morava numa fazenda, num casarão que era uma imensidade, a casa tinha vinte e seis cômodos. Um deles era um salão que dava para se fazer baile. Faziam-se bailes lá na minha casa, e a minha mãe tomava conta lá da fazenda. Tinha quatro empregadas para poder gerir a fazenda. Tinha a cozinheira, a copeira, a arrumadeira. Mais a faxineira que vinha de fora.  E a lavadeira, que se desdobrava em duas: ela e a filha.Vinham uma vez por semana, e uma vez por semana em casa se fazia uma espécie de mutirão para fazer doce:  em calda e  cacheta. Estes eram os dias de descascar marmelo, descascar pêssego, figo. Era dia de contar história. E o pessoal contava história de arrepiar. Descascando fruta e contando história. Quando era a hora do tacho, não...