As flores azuis por Ruth Guimarães Botelho
As flores azuis Ruth Guimarães Era domingo, quente. Cigarras escondidas por aí, zinindo, sorvetes nos carrinhos da praça. O pipoqueiro rodeado de crianças, com notinhas de um real nas mãozinhas fechadas. A pérgola do jardim se iluminava de flores vermelhas, abrindo labaredas contra o céu, nunca vi tanta audácia. Era domingo. Seu Geraldo, que se julgava muito homem, mas que não gostava de mulher, encostou o pé no tronco craquento de uma velha roseira e dormiu quase uma hora. Acordou às três. A criançada do catecismo voltava da igreja com santinhos na mão. E a vizinha desenhava arabescos de prata sobre as flores com a água de um regadorzinho verde garrafa. Ele se remexeu, endireitou o corpo com um safanão que fez a roseira chover pétalas na grama. Nem bem a vizinha aparecera na escada, ele fechara os olhos, cheio de ojeriza. Mas estava fazendo um calorzinho coçado, que afaga, que amolenta, que agrada o corpo. Gostosur...